Na Estrutural, música muda trajetórias de jovens em área vulnerável do DF
Na Cidade Estrutural — região com a menor renda per capita do Distrito Federal — o som de violinos e vozes em coro deixou de ser apenas expressão artística para se consolidar como estratégia concreta de transformação social. Há dois anos, o projeto Em-canto & Em-cordas atua como uma espécie de política pública complementar, combinando formação musical com acolhimento psicossocial.
A iniciativa, conduzida pelo Instituto Reciclando Sons e apoiada pela Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus-DF), entra agora na fase final, com encerramento previsto para julho de 2026. Ao longo do ciclo, cerca de 200 jovens foram atendidos, em um investimento superior a R$ 1 milhão proveniente do Fundo da Criança e do Adolescente.
Mas os números não traduzem, por si, o alcance do projeto. A proposta vai além da formação artística: estrutura uma rede de proteção social em torno de crianças e adolescentes expostos a contextos de vulnerabilidade. Antes de cada aula, há um ritual de acolhimento. Durante 15 minutos, temas como comunicação não violenta, conflitos familiares e saúde emocional são trabalhados por uma equipe multidisciplinar de 20 profissionais, entre psicólogos, assistentes sociais e educadores.
“A música aqui é meio, não fim”, resume a lógica do programa.
Do território à cidade
Três vezes por semana, jovens de 7 a 17 anos participam de aulas de violino, viola, violoncelo, canto coral, musicalização e informática. Para muitos, trata-se do primeiro contato com espaços fora da própria comunidade — uma ruptura simbólica importante.
Casos como o de Maria Júlia Cardoso, 10, e Jhonatas Levy, 9, ilustram esse deslocamento. Ambos passaram a frequentar palcos tradicionais de Brasília, como o Teatro Nacional Claudio Santoro, a Caixa Cultural Brasília e a Casa Thomas Jefferson — espaços historicamente distantes da realidade da periferia.
A experiência amplia repertórios e redes de pertencimento. Ao mesmo tempo, expõe uma das funções centrais da cultura em territórios vulneráveis: criar pontes.
Proteção social como eixo
O diferencial do projeto está na engrenagem invisível que sustenta as apresentações. O acolhimento diário funciona como mecanismo de prevenção de riscos sociais, atuando sobre fatores que, em muitos casos, antecedem situações de violência ou evasão escolar.
Segundo a psicóloga Maria Helena Gama, o espaço cumpre uma função de proteção contínua. “Muitas vezes, são situações que eles não conseguem resolver em casa. Aqui, encontram escuta e orientação”, afirma.
Essa abordagem dialoga com uma visão mais ampla de política social: intervir na infância e adolescência como estratégia de longo prazo para redução de desigualdades.
Efeito multiplicador
O impacto extrapola os alunos. Famílias — muitas chefiadas por mulheres — também são integradas à rede, com cursos de capacitação, apoio alimentar e ações de saúde. A lógica é ampliar o alcance do projeto para além do indivíduo, atingindo o núcleo familiar.
A trajetória de Elinielma Nascimento sintetiza esse efeito. Ex-aluna, formada pela Universidade de Brasília (UnB), ela retorna como profissional. “Eu era uma dessas crianças. Hoje posso ajudar outras a vencer”, diz. Sua presença opera como referência concreta de mobilidade social.
Entre cultura e política pública
Com 25 anos de atuação, o instituto já atendeu cerca de 50 mil pessoas e formou 13 mil estudantes. Ainda assim, o encerramento do ciclo atual expõe uma fragilidade recorrente: a dependência de editais e financiamento público para continuidade.
A idealizadora do projeto, Rejane Pacheco, resume o dilema. “Quando você investe na infância, previne uma série de problemas sociais no futuro”, afirma.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a manutenção de um projeto cultural, mas a continuidade de uma tecnologia social que atua onde o Estado formal muitas vezes não chega.
Na Estrutural, o som do violino cumpre uma função que vai além da estética: organiza trajetórias, amplia horizontes e, em muitos casos, redefine destinos.



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