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Jornalistas independentes viram alvo de perseguição institucional no Distrito Federal

Fazer jornalismo independente no Distrito Federal deixou de ser apenas um desafio profissional e passou a representar um risco concreto à liberdade individual e ao exercício democrático. Não se trata de violência física ou intimidação direta nas ruas, mas de algo mais sofisticado e igualmente perigoso: o uso institucional do Estado para calar vozes críticas.

Nos bastidores do poder local, cresce uma prática alarmante: políticos que, incapazes ou indispostos a responder publicamente a denúncias e questionamentos, optam por judicializar o debate, transformando a Justiça e a máquina pública em instrumentos de censura. O recado é inequívoco — quem critica os poderosos deve estar preparado para sofrer retaliações.

O caso mais recente envolve o comunicador Cabo Vitório, que teve seu perfil no Instagram suspenso por decisão judicial após ação movida pela deputada distrital Jane Klebia. O conteúdo que motivou a medida não era sigiloso, nem inédito, tampouco ilegal: tratava-se de denúncias públicas, amplamente divulgadas pela imprensa local. Ainda assim, a resposta não foi o esclarecimento, mas o silenciamento.

Chama atenção o fato de a parlamentar ser ex-delegada, conhecedora dos limites e das brechas do sistema jurídico. Em vez de enfrentar o debate público, recorreu à via judicial para retirar do ar um jornalista independente. O resultado foi imediato: perfil suspenso, trabalho interrompido e um precedente perigoso estabelecido.

O episódio, contudo, não é isolado.

A vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão, também já foi citada em tentativas de remover conteúdo jornalístico legítimo. No caso do Diário de Ceilândia, assessores ligados ao próprio Governo do Distrito Federal teriam sido mobilizados para pressionar pela retirada de vídeos e matérias críticas. O uso de servidores e estruturas públicas para intimidar veículos independentes representa uma grave distorção do papel do Estado e afronta direta aos princípios constitucionais.

O padrão que se desenha é inquietante – jornalistas independentes passam a ser tratados como inimigos políticos, não como agentes legítimos da fiscalização democrática. Deputados recorrem à Justiça para censurar, autoridades do Executivo utilizam a máquina pública para pressionar, e o resultado é um ambiente de medo, autocensura e insegurança jurídica.

Sob a ótica legal, o cenário é ainda mais preocupante. A Constituição Federal de 1988 é clara ao assegurar a liberdade de expressão e de imprensa, vedando qualquer forma de censura prévia. Quando decisões judiciais ou ações administrativas são utilizadas para retirar conteúdo jornalístico sem o devido equilíbrio entre honra e interesse público, o Estado deixa de ser garantidor de direitos e passa a ser agente de repressão.

Enquanto grandes veículos contam com departamentos jurídicos robustos, jornalistas independentes — que cumprem papel essencial sobretudo nas periferias e regiões administrativas — ficam vulneráveis a decisões que podem destruir anos de trabalho, reputação e sustento.

O Distrito Federal precisa fazer uma escolha clara: quer uma democracia madura, em que agentes públicos prestam contas, respondem a críticas e respeitam a imprensa livre? Ou aceitará uma democracia fragilizada, onde o poder é usado para intimidar, silenciar e punir quem ousa questionar?

A liberdade de imprensa no DF não está apenas ameaçada — está sob ataque direto. Diante disso, o silêncio não é neutralidade. Quem se cala, consente. Quem consente, se torna cúmplice.

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