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Ibaneis Rocha expõe constrangimento público, enquanto Manoel de Andrade reafirma estatura institucional

O evento “Mérito Fecomércio”, tradicional vitrine da elite empresarial do Distrito Federal, tornou-se palco de um constrangimento público que revelou mais do que uma gafe ocasional. Lá foi exposto, de forma cristalina, a distância ética, institucional e simbólica entre duas figuras centrais do poder local. De um lado, a elegância sóbria e a trajetória construída no mérito do presidente do Tribunal de Contas do DF, Manoel de Andrade. Do outro, a tentativa mal calculada do governador Ibaneis Rocha de transformar solenidade em palco para bravata pessoal e narrativa política rasteira.

O governador, ao tomar a palavra, optou por um tom inadequado ao ambiente e à gravidade institucional do momento. Em vez de reconhecer a história e o papel constitucional do presidente do TCDF, Ibaneis recorreu a uma anedota de gosto duvidoso sobre supostos tempos de faculdade, insinuando que teria “dado cola” a Manoel de Andrade, reduzindo uma trajetória sólida de serviço público a uma piada improvisada e desrespeitosa.

A fala, longe de soar descontraída, carregou um subtexto perigoso: a tentativa de diminuir o mérito alheio para criar uma falsa intimidade pública. Ao sugerir que Andrade teria sido prejudicado academicamente por trabalhar como taxista — fato que, por si só, já carrega um viés preconceituoso — o governador não apenas errou no tom, mas atingiu o coração do que deveria ser intocável em uma democracia: o respeito às instituições e às histórias de superação que as constroem.

A reação de Manoel de Andrade foi a síntese da diferença entre estatura institucional e improviso político. Sem elevar a voz, sem recorrer à agressividade, o presidente do TCDF desmontou a narrativa do governador com firmeza, elegância e fatos. Desmentiu a suposta proximidade acadêmica, esclareceu que não houve convivência relevante no UniCeub e reafirmou sua trajetória construída com esforço, formação múltipla e atuação pública consistente.

Deputado, geógrafo, dirigente sindical, gestor público e hoje presidente de um dos órgãos mais relevantes de controle do Distrito Federal, Manoel de Andrade não precisou atacar para se afirmar. Bastou-lhe apresentar a própria história — aquela que não cabe em piadas, nem se presta a jogos de conveniência política.

A tentativa posterior de Ibaneis Rocha de remendar o episódio com elogios genéricos e acenos a uma suposta “aliança política” apenas aprofundou o desconforto. Soou oportunista, artificial e desconectada da liturgia do cargo. Governadores não fazem humor com a independência dos órgãos de controle. Não reduzem magistrados a personagens de histórias pessoais. Não flertam com narrativas que fragilizam, ainda que simbolicamente, a autonomia institucional.

Diante de lideranças políticas e empresariais — entre elas o senador Izalci Lucas — o episódio escancarou uma verdade incômoda: há quem confunda poder com informalidade excessiva e quem compreenda que autoridade se sustenta no respeito, não na tentativa de constranger o outro em público.

Ao fim, Manoel de Andrade saiu maior do que entrou. Não apenas por sua postura irrepreensível, mas por reafirmar que a verdadeira elegância no serviço público não está no discurso ensaiado, e sim na coerência entre trajetória, conduta e compromisso institucional. Já o governador Ibaneis Rocha deixou no ar uma pergunta inevitável: até quando o Distrito Federal terá de conviver com a banalização simbólica de suas instituições em nome de conveniências políticas momentâneas?

O Mérito Fecomércio premiava trajetórias. Mas foi fora do protocolo que se revelou, com clareza desconfortável, quem realmente honra a própria história — e quem insiste em apequená-la.

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