Promessas Repetidas e Desconfiança – Empresários veem uso eleitoral em novo discurso de Ibaneis sobre Vicente Pires
O almoço do governador Ibaneis Rocha com empresários e lideranças locais, realizado nesta quarta-feira (10) na Churrascaria Buffalo Bio, terminou longe do clima de celebração pretendido pelo Palácio do Buriti. Embora o evento tenha reunido aliados, secretários e representantes da administração regional, parte dos presentes saiu com a sensação de déjà-vu. O governador, pela terceira vez em dois anos, voltou a prometer obras, regularização e soluções estruturais que ele mesmo já havia garantido — sem entregar.
Nos bastidores, empresários e lideranças comentaram que o encontro teve forte cheiro de pré-campanha. Muitos classificaram o discurso de Ibaneis como “eleitoral e repetitivo”, apontando que os compromissos apresentados já constavam de anúncios anteriores, alguns feitos ainda no primeiro mandato.
Promessas que retornam — e inquietam o público
Ao afirmar que “construiu uma cidade” e anunciar uma nova área de 20 hectares da Terracap para moradias da Codhab, Ibaneis ressaltou realizações e voltou a citar obras que classifica como “transformadoras”. No entanto, parte da plateia manteve postura reservada.
O incômodo ficou evidente quando o governador afirmou que, em 2025, “chegaremos à última fase da Avenida da Misericórdia”, promessa já repetida ao menos duas vezes anteriormente. A via, alvo constante de reparos, adiamentos e soluções provisórias, é uma das principais frustrações da população local.
Uma liderança empresarial, que pediu reserva de identidade para evitar retaliação, resumiu o sentimento:
“Ele prometeu exatamente o que prometeu nos últimos dois anos. E continua dizendo que vai entregar ‘agora vai’. O problema é que o agora nunca chega.”
Desconfiança sobre uso político das necessidades da cidade
A desconfiança de parte dos presentes se intensificou quando Ibaneis reforçou que pretende deixar projetos prontos para o Assentamento 26 de Setembro e lançar, já em 2 de janeiro, o edital de regularização de Vicente Pires.
Alguns empresários entenderam o anúncio como um evidente movimento eleitoral — sobretudo porque a regularização é um dos temas mais sensíveis e aguardados há anos pelos moradores.
“Falar de regularização num momento como esse é, no mínimo, estratégico politicamente. A cidade espera há décadas. Quando vira promessa de véspera, a credibilidade cai”, afirmou uma liderança comunitária.
Juristas consultados pela reportagem observam que, embora não haja ilegalidade em apresentar planos de governo ou divulgar ações do Executivo, o uso reiterado de anúncios similares em contexto pré-eleitoral pode caracterizar abuso político-comunicacional, caso seja utilizado para favorecer candidaturas apoiadas pelo governo. Não se trata de acusação, mas de uma análise dentro da legalidade.
O contraste entre narrativa oficial e a realidade percebida
A fala empolgada de secretários, como a de José Humberto Pires — que classificou Vicente Pires como “uma das mais bonitas do DF” — foi recebida com certa incredulidade por parte da plateia. Para muitos empresários presentes, a cidade está longe de ser o cartão-postal descrito nos discursos.
Problemas estruturais como drenagem insuficiente, erosões recorrentes, pontos de alagamento e obras entregues com caráter provisório ainda fazem parte do cotidiano da região.
A própria Avenida da Misericórdia — citada como marco da gestão — segue com trechos incompletos, etapas remarcadas e execução condicionada ao fim do período de chuvas.
Balanço de obras versus execução real
O GDF apresentou investimentos expressivos em obras desde 2023, que somam mais de R$ 211 milhões. Há entrega de pontes, redes de drenagem e infraestrutura em alguns lotes. Contudo, especialistas em gestão pública lembram que a maioria dos projetos em Vicente Pires vem sendo executada em ciclos fragmentados, com substituições de equipes e necessidade de refazer trechos, o que cria um ambiente de desconfiança e desgaste político.
Para parte dos empresários, a repetição de anúncios cria a percepção de que o governo tenta capitalizar obras antigas como se fossem inéditas.
“Sempre tem uma placa, sempre tem uma promessa, mas a cidade continua recebendo obras picadas”, comentou um comerciante.
Placa de agradecimento gera desconforto
A entrega de uma placa de homenagem ao governador, segundo o administrador Anchieta Coimbra, foi iniciativa da comunidade. Porém, alguns presentes viram o gesto como inadequado diante da sensação de obras inconclusas.
Uma liderança afirmou que “a placa veio antes da entrega final das promessas”, o que reforçou a leitura de que o evento buscava construir uma imagem positiva num momento politicamente conveniente.
Um almoço, duas leituras
Para o governo, o encontro apresenta um conjunto de realizações e reafirma o compromisso com a continuidade das obras.
Para parte dos empresários e lideranças, o evento marcou o retorno de velhas promessas — agora embaladas em um discurso que, para muitos, já não convence.
O saldo é claro: cresce a percepção de que as necessidades de Vicente Pires, em vez de prioridade administrativa, podem estar se tornando capital eleitoral.
E, enquanto discursos se repetem, a cidade segue à espera do que já foi prometido — e ainda não foi entregue. Por: André Teixeira – Foto: Agência Brasília.



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